Nuvem na Galeria: o processo como fenômeno, o sopro como matéria
Por entre camadas, condensações e dissoluções, o que se vê e o que se intui se encontram na exposição “Nuvem na Galeria”, que ocupa a Sala Celso Renato de Lima, no Centro Cultural UFMG, entre os dias 10 de outubro e 23 de novembro de 2025. A mostra reúne artistas-pesquisadores do grupo NUVEM – Núcleo de Estudos sobre Visualidades, Espacialidades e Materialidades em Arte Contemporânea, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), sob a coordenação da professora e curadora Cláudia França.
A metáfora da nuvem — tão antiga quanto o ato de olhar para o céu — adquire aqui um caráter teórico e poético singular. Se, na era digital, “nuvem” remete ao espaço de armazenamento de dados, no campo da arte, o termo assume sua acepção meteorológica: massa em suspensão, instável, condensação de matérias em trânsito. É, pois, essa condição mutável, esse estado intermediário entre o visível e o informe, que define a natureza do grupo e de sua primeira ação coletiva, selecionada por edital para ocupar o espaço expositivo da UFMG.
As pesquisas reunidas em NUVEM emergem de uma concepção ampliada de criação artística, na qual o fazer é também reflexão, e a obra não se encerra em seu resultado material, mas se estende nos gestos, nos desvios e nas pausas. O grupo, formado por mestrandos, doutorandos e egressos da UFES, concentra-se em investigações que compreendem o processo de criação como fenômeno, em diálogo com o projeto de pesquisa homônimo coordenado por Cláudia França: “O processo de criação como fenômeno: operações, dinâmicas, modelos temporais”.
Nesse contexto, a pesquisa em arte assume uma dimensão simultaneamente prática e teórica, onde o artista é o autor, o observador e o analista de sua própria poética — conforme lembra Iclea Cattani, ao afirmar que o pesquisador em arte é, ao mesmo tempo, criador, testemunha e teórico de seu fazer. A exposição “Nuvem na Galeria” concretiza essa tríplice dimensão, tornando visíveis os atravessamentos entre gesto, matéria e pensamento.
Do conceito à materialidade
O conjunto de obras apresentadas evidencia as múltiplas direções assumidas pelo grupo, que transita entre linguagens e escalas: gravura, instalação, performance, fotografia, objeto, vídeo e palavra-texto convivem em um ambiente de ressonâncias e contrapontos.
Em André Magnago, a gravura se torna ação performativa. Suas matrizes, longe de servirem apenas à reprodutibilidade, adquirem autonomia como corpos tridimensionais que revelam o gesto e a pressão do ato de imprimir. Já José Henrique Rodrigues explora as monotipias e suas intersecções com o desenho, intervindo em páginas de romances e contos, onde personagens e manchas gráficas coexistem, como se as imagens quisessem escapar da bidimensionalidade do papel.




Luan Coelho apresenta uma escultura de grande carga simbólica: uma mão de glicerina, perfurada por 192 agulhas de tatuagem usadas em seu ofício. O trabalho é uma reflexão sobre o corpo como território de inscrição, dor e contato — uma mão que se multiplica nas mãos de outros.


Nas obras de Iasmim Dala Bernardina, as mãos também se tornam protagonistas. A artista transforma gestos cotidianos — amassar, enrolar, costurar, misturar — em um vocabulário silencioso, uma autoetnografia do gesto que evoca saberes ancestrais e femininos. A manualidade se desdobra ainda nas cartografias têxteis de Karol Rodrigues, que transforma caminhadas pela cidade de Vitória em bordados e costuras, linhas soltas que se movem ao sabor do ar, como se a própria nuvem se tornasse desenho.




João Cóser, Francisco Pereira e Marcelo Gandini investigam a pele como superfície simbólica e sensorial. Em Cóser, o corpo se reveste de peles vermelhas ou de grãos de arroz, oscilando entre o íntimo e o visceral, o macio e o duro, o olhar que se volta para dentro e aquele que enfrenta o espectador. Francisco Pereira, por sua vez, funde corpo e natureza, buscando abrigo nas cavidades das árvores, nos buracos do solo, nos gestos dos animais — uma coreografia de vulnerabilidade e pertencimento. Já Marcelo Gandini se volta à fotografia analógica, intervindo em negativos e copiões com raspagens e banhos de ácido: imagens que emergem e se dissolvem em texturas luminescentes, como visões oníricas que cintilam entre o visível e o velado.






Poéticas do ar, do corpo e da matéria
Se há algo que une essas pesquisas tão diversas, é o modo como lidam com as instabilidades do tempo e da matéria. O grupo NUVEM, fundado em 2024, é, ele próprio, uma entidade em movimento — um corpo coletivo de 12 artistas-pesquisadores que compartilham inquietações sobre o fazer artístico e suas intersecções com o mundo. Em suas práticas, a arte emerge do encontro entre o íntimo e o social, o artesanal e o conceitual, a leveza e o peso.
A curadora Cláudia França recorre a Norbert Elias e Michel Foucault para pensar o desenho expositivo: se Elias compreende a sociedade como uma dança de interdependências, na qual o indivíduo se conecta a outros por meio de movimentos simultâneos, Foucault propõe o espelho como uma heterotopia — um espaço outro, que reflete e inverte o real. A galeria torna-se, assim, esse lugar de suspensão e reflexo, onde as obras dançam entre si, refletindo-se umas nas outras como corpos de vapor.
Entre corpos e atmosferas
“Nuvem na Galeria” é, portanto, uma exposição sobre interdependências — entre artistas, matérias, gestos e ideias. É também sobre o instante em que algo se forma e, ao mesmo tempo, se desfaz. As obras, ao ocupar a sala expositiva, configuram uma habitação efêmera, feita de tempo, ar e presença. São heterotopias de criação: mundos suspensos, visões passageiras, condensações de sentido.
No horizonte do grupo NUVEM, o que se anuncia é uma forma de pensar e viver a arte que não busca certezas, mas movimento. A nuvem — essa massa de leveza densa — é metáfora e método, conceito e corpo. Como no céu, as obras condensam o invisível até o ponto de torná-lo chuva: o instante em que a ideia toca o chão.
Entrevista com Claudia França

A exposição “Nuvem na Galeria” tem a proposta de reunir obras de artistas-pesquisadores, partícipes do Programa de Pós-Graduação em Artes da UFES e orientados pela curadora, desde 2021. Alguns deles são egressos; outros são mestrandos e doutorandos. Já dentro de uma vertente de pesquisa em arte, O Programa de Pós-Graduação possui, em uma de suas linhas de pesquisa – Teorias e Processos Artístico-Culturais, a possibilidade de que o artista possa investigar o seu próprio fazer.
Uma pesquisa em arte ou ainda, em poéticas visuais, significa que cada artista desenvolve um trabalho pessoal autônomo, autoral. Por meio deste trabalho (já realizado ou em processo), o/a artista deseja compreender determinadas nuances práticas e de cunho reflexivo de sua conduta criadora. Não bastaria realizar uma obra, mas compreender como e sob quais circunstâncias a obra foi e tem sido feita. Deslindar a intencionalidade e as implicações decorrentes das suas escolhas, materiais, temáticas, entre outras. Todos estes elementos estão em jogo naquela elaboração, junto aos procedimentos estritamente técnicos e às atuações do acaso. São posturas prático-reflexivas em cuja base está a questão: como esse lugar foi alcançado?
O fazer vai apontando também diversas conexões com outras áreas do conhecimento; essas áreas são potencialmente “infinitas” e insuspeitas, a depender do encaminhamento da conduta criadora do/da artista. Conexões possíveis com áreas das ciências consideradas “duras”, como Física, Química; ou entre áreas das Humanidades, como História, Filosofia, entre outras. E essas conexões demandam investigações acerca de conceitos provindos dos encaminhamentos técnico-poéticos do trabalho artístico. Talvez esse lugar alcançado seja a consciência do ponto de partida da pesquisa acadêmica em arte: trata-se da obra, posta em trabalho.
Um elemento aglutinador importante, dentro desta proposta expositiva, é a vera natureza dos trabalhos que compõem exposição. De um lado, a proveniência dos trabalhos apresentados, oriundos da pesquisa acadêmica em arte e de um modo de pesquisar. Constrói-se uma rede. Como os trabalhos atualizados na galeria dialogam entre si e dialogam com trabalhos anteriores da lavra de cada artista; como dialogam com obras de outros artistas, nacionais e internacionais. São também possíveis diálogos com outros temas e conceitos de áreas afins e mesmo de áreas distintas. Trata-se, pois, da capacidade que um trabalho artístico tem de conectar pessoas, conectar tempos e realidades, conectar obras aparentemente distintas entre si. São camadas, estratos de envolvimento, conexões em rede sendo tramadas no ato expositivo.
Por outro lado, a subjetividade de cada artista coloca-se como elemento aglutinador dessa coletividade. Quando iniciamos nossas atividades como artistas, é comum experimentarmos materiais e técnicas sem uma intencionalidade claramente posta. Esta intencionalidade se faz no tempo, na prática e no conhecimento da história de vida que cada qual carrega. É esta intencionalidade/subjetividade/singularidade que atua na formação de um “desenho temporal” do processo criativo de cada artista. Os trabalhos em exposição investigam altas e baixas tecnologias, seja em vídeo, em fotografia digital e analógica, seja em gravuras. Investigam a presença direta da mão em obra, do gesto manual como fenômeno. Do corpo exposto ou em busca de acomodação.
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Jornalista por essência, maquiadora profissional por paixão e estudante de Biomedicina por inquietação. Integra a equipe do Consórcio de Notícias do Brasil (CNB), onde atua com olhar atento, sensibilidade e responsabilidade na produção de conteúdo.



